Ciência da Lógica - Prefácio à primeira edição (1812)

Ciência da Lógica
1. A doutrina do Ser
Prefácio à primeira edição (1812)
[1§ - 6§] Revolução kantiana da filosofia, novos tempos e sua influência na Lógica
§1. A revolução kantiana (1787) da filosofia ainda não teve muita influência na lógica.
§2. Questões da Metafísica anterior a Kant desapareceram do interesse da filosofia. O povo perdeu sua Metafísica.
§3. Desinteresse e declínio da Metafísica em nossos tempos. Desaparição da Teologia. Somos um povo culto sem metafísica.
Pelo lado da ciência. Kantianismo: não é possível ultrapassar a experiência sem cair em quimeras da razão teórica. Renúncia ao pensar especulativo.
Pelo lado do senso comum. Pedagogia moderna: voltada para a necessidade imediata, para o saber prático e para o proveitoso na vida pública e privada.
§4. Também há um desinteresse pela Lógica em nosso tempo. Mas este ainda se preserva em virtude de alguma utilidade formal. Contudo, seu conteúdo permaneceu o mesmo. A revolução filosófica kantiana não a atingiu ainda.
"Quando a forma substancial do espírito se transformou, é de vez por todas algo vão querer conservar as formas da formação anterior; elas são como folhas murchas que são repelidas pelos novos brotos que já foram gerados em suas raízes." (p. 26-27)
§5. Mas apesar da resistência, o campo científico acaba se rendendo gradualmente aos novos tempos.
§6. Mas os tempos de efervescência com o novo, que recuso todo o passado, acabou. É chegada a hora de acertar contas (sistematicamente) com a Metafísica e com a Lógica antigas.
"Há um período na formação de um tempo, tal como na formação do indivíduo, em que se trata principalmente da aquisição e afirmação do princípio em sua intensidade não desenvolvida. Mas a exigência superior almeja que ele se torne ciência." (p. 27)
[7§ - 9§] Propondo um novo conceito científico para o tratamento especulativo da Lógica
§7. A ciência lógica (metafísica ou filosofia especulativa) foi até o momento muito negligenciada nesse processo de revolução filosófica. Essa ciência só pode ser investigada via um novo conceito de tratamento científico: pela via do pensar que é conteúdo que se move por sua própria reflexão, que põe e gera suas próprias determinações.
§8. Composição do desenvolvimento imanente do conceito, método absoluto do conhecer, alma imanente do próprio conteúdo.
Entendimento: determina e mantém as determinações.
Razão negativa ou dialética: dissolve as determinaçõs do entendimento em nada.
Razão positiva: produz o universal e compreende o particular inserido nele.
Espírito
- Enquanto entendimento: nega o simples e põe a diferença determinada;
- Enquanto razão negativa: dissolve as diferenças;
- Enquanto razão positiva: reestabelece o primeiro simples, porém, como o universal que é concreto em si. O particular está aqui integrado ao universal, não subsumido (externamente).
Esse método fora trabalhado na "Fenomenologia do Espírito": a consciência é o espírito enquanto saber preso na exterioridade mas que ao fim do caminho se torna saber puro e passa a objetificar as essencialidades puras (a lógica, que guiou seu caminho) tais como elas são em e para si. Essa é a relação da "Fenomenologia do Espírito" com a "Lógica"
§9. Sistema da ciência (projeto).
Primeria parte do Sistema da Ciência: "Fenomenologia do Espírito".
Segunda parte do Sistema da Ciência: "Lógica", "filosofia da natureza" e "filosofia do espírito".
Divisão da Lógica (projeto 1812):
1º Volume: Livro I - Doutrina do Ser; Livro II - Doutrina da Essência;
2º Volume: Doutrina do conceito (lógica subjetiva)
Prefácio à segunda edição (1831)
§1. O objeto de estudo da Ciência da Lógica é difícil. Indulgência do leitor: essa ciência ainda contém imperfeições.
Porque a Lógica tal como aqui apresentada é um empreendimento sem precedentes. Porque a Metafísica e Lógica anteriores não são especulativas: servem para essa matéria apenas como ossos inanimados de um esqueleto, embaralhados desordenadamente.
[2§ - 3§] A lógica natural (o lógico) é o mais imediato e está impregnado em tudo que o homem faz ou pensa, mas é inconsciente de suas formas e leis.
§2. O lógico é a natureza do ser humano.
Presente no comportamento natural.
O lógico se insere no sentir, no intuir, no desejar, na sua necessidade, no seu impulso.
Presente na linguagem.
Formas do pensar implícitos na linguagem: categorias lógicas. Exemplos de expressões lógicas nas diferentes línguas: preposições, artigos, substantivos, verbos, palavras com significados opostos (especulativo).
Depurada na ciência.
O avanço das ciência descobre outras relações de pensamento mais altas e universais: exemplo a categoria da polaridade (identidade e diferença unidos inseparavelmente).
No trato científico, empírico e sensível com a natureza, as categorias da lógica são fixadas, ainda que uma sem relação com as outras.
§3. A lógica é conhecida, mas não é reconhecida.
Função do prefácio: representação geral do sentido do conhecer lógico, partindo do pensar natural para o pensar científico.
[4§ - 5§] Início da ciência lógica: depuração dos conceitos puros com relação aos interesses e à sensibilidade.
§4. A relação das formas de sentir com as formas de pensar
Gênese da lógica. Formas do pensamento universal destacadas da matéria, da sensibilidade, dos interesses e consideradas por si, de modo puro: Platão e Aristóteles. Condição: ausência do carecimento. Transformação da lógica natural (inconsciente) em ciência da lógica.
Mas essa ciência lógica, uma vez conquistada, tem se subordinado aos interesses práticos da vida. Tem sido estudada na escola como um trabalho preliminar para servirem às questões espírituais mais sérias. O pensar é tornado algo subordinado às outras determinações espirituais (sentir, desejar = particulares). Mas isso é uma inversão de hierarquia. Não possuímos as formas do pensar, as formas do pensar nos possuem.
A lógica não tem nenhuma utilidade prática. É livre em e para si. Não deve ser tomada como um meio para as finalidades particulares da vida. Ela é o mais universal, o lugar da certeza de si mesmo, da abstração pura ou do pensar. Diz respeito ao conceito objetivo das coisas, a Coisa, que é apenas para o pensar e que não está sujeito ao nosso querer e pensar subjetivos (embora este participe daquela).
§5. Forma x conteúdo
A lógica não vale apenas como o conjunto das formas exteriores do pensamento em oposição ao seu conteúdo substancial.
A atividade do pensar trata do próprio conceito da Coisa, do próprio conteúdo (realidade). É o elemento primeiro anterior à divisão da consciência (sujeito-objeto) e que por isso se assemelha a uma lógica natural (inconsciente) que impregna todas as representações, interesses e ações.
Trazer à consciência essa natureza lógica, que anima o espírito, impulsiona e age nele, isto é a tarefa.
[6§ - 7§] Necessidade de suprassumir a lógica natural (inconsciente/conteúdo) e a lógica escolar (subjetiva/formal) na "verdade" (infinitude), o objeto da lógica.
§6. O instinto da "razão sã" é suprassumir a lógica natural (conteúdo) e a lógica escolar (forma) na "verdade" (infinitude).
Se o início da ciência da lógica esteve (em Platão e Aristóteles) na depuração dos conceitos ou das formas que seriam diversas das matérias e dos interesses, permanecer nessa cisão (finitudes de categorias meramente formais) seria não compreender a verdade (infinitude), que é o objeto e finalidade da lógica.
A "razão sã" deve suprassumir a lógica natural (inconsciente) e a lógica escolar (meramente formal).
A lógica natural é inconsciente e instintiva, não-livre, está presa no serviço do pensar não purificado.
A lógica escolar é presa ao entendimento (formal) e diz mais respeito à exatidão dos conhecimentos do que à verdade. É inútil para a verdade mais alta, por exemplo, a religiosa.
§7. O pensar segundo a verdade deve integrar o conteúdo na forma. Com isso o objeto se torna não as coisas, mas a Coisa, o conceito das coisas. O objeto da ciência da lógica é o logos.
O conceito é a base substancial (o um) do aparecer em múltiplos. Mas é determinado e por isso aparece como conteúdo. A determinidade ou momento do conceito é uma determinação da forma da unidade substancial, da forma como totalidade. O conceito é somente objeto, produto e conteúdo do pensar. Ele é a coisa que é em si e para si, o logos.
Suprassunção da lógica natural e da lógica escolar (subjetiva):
"[...] a ciência lógica, na medida em que ela trata das determinações do pensar que em geral permeiam nosso espírito instintiva e inconscientemente e, mesmo na medida em que elas adentram na linguagem, permanecem não objetivas, despercebidas, será também a reconstrução daquelas que estão destacadas pela reflexão e são por elas fixadas como subjetivas, como formas exteriores na matéria e no conteúdo substancial." (p. 40)
§8. Sobre a apresentação, a exposição e o desenvolvimento do objeto da Ciência da Lógica. Como a ciência deve iniciar.
Objeto imanentemente plástico: o do pensar na sua necessidade. Requer uma exposição plástica e paciente em seus momentos.
A ciência tem de iniciar com o puramente simples, o mais universal e o mais vazio. Ela só deve progredir para a próxima categoria quando tiver demonstrado a firmeza da anterior (sem a intromissão de outras categorias).
§9. Pedidos de compreensão para o leitor quanto à dificuldade do objeto e da paciência e ócio que o pensamento teria que ter para repensar a obra muitas vezes até chegar a perfeição.
ESTRUTURAÇÃO DO TEXTO
Categorias lógicas: ser, nada, devir...
Meta-categorias: entendimento, razão dialética, razão especulativa, suprassunção...
Gramáticas: Ser, Essência e Conceito
Formação do pensamento político em Hegel sob a ótica da sociedade civil: influências, papel e limitações
- Frankfurt: crítica do imediatismo, necessidade da reflexão (relações jurídicas e econõmicas)
- Iena: Filosofia real I e II
- Relação da economia com o Estado no Hegel
Dieter Henrich
Hegel en su contexto
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